Conhecendo a Homeopatia
- A Homeopatia - O que é?
- Homeopatia - Ciência Experimental e seus Princípios Terapêuticos
- História da homeopatia no Brasil
- Homeopatia - Prática Médica
- Samuel Hahnemann - Uma autobiografia
- Vídeos
A Homeopatia - O que é?
João Márcio Berto – CRMMG 30808
Médico Homeopata em Nova Lima – MG
O que é?
É uma especialidade médica, odontológica, veterinária e farmacêutica, desenvolvida há 200 anos atrás na Alemanha, depois espalhou-se pelo mundo. Baseia-se no tratamento do indivíduo como um todo e não apenas da doença. Por isso é uma terapêutica integral, trata tanto sintomas mentais quanto males físicos.
Quem pode usar?
Qualquer pessoa em qualquer idade pode fazer um tratamento homeopático, não há contraindicação. A Organização Mundial de Saúde, o Ministério da Saúde e a Secretaria Estadual de Saúde, assim como a prefeitura de várias cidades em Minas Gerais e no Brasil reconhecem os benefícios que esta terapêutica traz para o indivíduo e para a sociedade. É recomendada pela sua efetividade, simplicidade e baixo índice de complicações.
leia mais...
Os remédios homeopáticos:
Os remédios homeopáticos podem ser de origem animal, vegetal ou mineral e devem ser preparados por farmacêuticos especializados em homeopatia, através de técnicas especificas de diluição e dinamização. Podem ser dados em pó, líquido, glóbulos, comprimidos, tabletes, em doses repetidas ou em dose única.
Para que serve a Homeopatia?
Como dito acima, a Homeopatia trata o doente como um todo, por isso serve para todos os tipos de doenças, inclusive as crônicas como diabetes e hipertensão. Porém, não se deve suspender o tratamento convencional para usar a homeopatia. Os dois tratamentos podem ser feitos juntos. Vale lembrar que, se não houver o cultivo de bons hábitos de vida, o tratamento sempre será prejudicado, seja ele qual for, portanto é fundamental uma boa alimentação e exercícios físicos regulares, além de evitar o estresse a todo custo.
Como são os efeitos da Homeopatia?
A Homeopatia é compreendida com uma medicina vitalista, conectando-se com a tradição Hipocrática dentro da medicina, que considera o organismo humano como portador de um princípio não material responsável pela harmonia do funcionamento dos órgãos e sistemas. Tal princípio é chamado de Força Vital, ou Energia Vital, e funciona como um maestro regendo todo o funcionamento do nosso organismo. A doença surge quando este princípio não identifica determinada desarmonia em algum órgão ou tecido e permite que surjam doenças tal como as conhecemos.
O tratamento homeopático será direcionado para estimular a Força Vital própria do indivíduo a identificar a desarmonia geradora da doença, e então, a Força Vital promove a saúde onde antes havia doença.
O remédio homeopático atua através da Lei da Semelhança (de onde deriva o nome Homeopatia – tratamento pelo semelhante). O remédio prescrito deve ser o mais semelhante possível aos sintomas que a pessoa apresenta, com suas particularidades e peculiaridades. Dessa forma, o remédio, “provoca” a Força Vital a reagir a esses sintomas que o remédio traz e como são semelhantes aos da doença instalada, promove a cura desses sintomas no organismo também.
O conhecimento dos remédios homeopáticos ocorre através de outro princípio da Homeopatia – a Experimentação no Homem São. O que é isso? Para se considerar determinada substância um remédio homeopático, é preciso ter sido experimentada dentro de um protocolo de experimentação, onde várias pessoas saudáveis tomam a medicação de forma supervisionada, e são anotados os efeitos ao longo do tempo. Tais efeitos, ou sintomas, formam o que chamamos de Matéria Médica daquele remédio. O trabalho do médico homeopata é encontrar o remédio que possui a Matéria Médica mais semelhante aos sintomas apresentados pelo doente em tratamento.
Conclusão:
A Homeopatia promove a cura provocando o organismo da pessoa a se curar. Tal cura vem do próprio organismo, com seus próprios recursos. O remédio homeopático é um provocador que, quando adequadamente escolhido, é capaz de fazer com que a Força Vital presente em todos nós, humanos, nos animais e nas plantas, reaja de forma a trazer harmonia para o organismo em questão. É um tratamento ativo, que usa os recursos do próprio indivíduo, e é isso que o diferencia do tratamento convencional a alopatia. Desta forma, os resultados são mais duradouros, não há toxicidade, e nem contaminação do meio ambiente, sendo inclusive indicado e permitido nas fazendas orgânicas.
Agora que você já conhece um pouco mais sobre esta especialidade, venha experimentar uma forma diferente de cuidar de si.
Homeopatia - Ciência Experimental e seus Princípios Terapêuticos
Dra Anna Carolina Rocha de Menezes
A Homeopatia é uma especialidade médica de característica vitalista e base experimental desde a sua descoberta há mais de 200 anos. Possui um corpo doutrinário com princípios e fundamentos que diferem do modelo médico “tradicional”, vigente, como veremos a seguir.
Grande equívoco existe a respeito da especialidade médica Homeopatia.
Ela é confundida, pela maioria das pessoas, com a Fitoterapia, que é a utilização de plantas medicinais no tratamento de doenças e também com os florais que são medicamentos provenientes de flores.
A Homeopatia surgiu na Alemanha em 1796, resgatada pelo médico alemão Dr. Samuel Hahnemann, 1755-1843.
Hahnemann formou-se na Alemanha em 1779 e praticou a medicina “dos contrários” até 1785. Neste ano decide abandonar a prática médica por verificar a ineficiência de sua terapêutica, já que os enfermos obtinham uma melhora temporária dos seus sintomas mas logo retornavam doentes como antes ou até piores. Hahnemann também não concordava com o pouco conhecimento que se tinha das substâncias utilizadas para tratar os doentes, assim como a sua forma de pesquisa. Tais conhecimentos eram baseados em estudos feitos em animais, o que para Hahnemann era insuficiente e inadequado se pesquisar algo em animais com a finalidade de se aplicar em humanos. Ele passou então a ocupar-se apenas de traduções de obras médicas a fim de encontrar um novo modo de conhecer as propriedades das substâncias, tratar e curar os doentes.
leia mais...
Foi então que, através da literatura médica da antiguidade, Hahnemann verificou que desde a Grécia antiga a medicina já reconhecia duas formas terapêuticas para abordar as doenças: uma fundamentada no princípio dos contrários, que é a base da medicina vigente, e outra no princípio dos semelhantes, que é a base da Homeopatia.
Foram longos anos de estudo, tradução e leitura até que em 1796, Hahnemann publica uma metodologia científica para a obtenção e conhecimento das propriedades farmacológicas das substâncias medicinais. Este método foi, todo ele, realizado de forma experimental e em indivíduos sadios e não em animais como era feito até aquele momento.
Hahnemann formulou, naquela época, quase um século antes, um método de pesquisa quase que idêntico ao famoso método de pesquisa experimental postulado pelo fisiologista francês Claude Bernard, conhecido como O Pai da Fisiologia Experimental e famoso pela sua obra: Introdução ao Estudo da Medicina Experimental.
Os estudos e experimentos foram realizados aplicando o princípio do semelhante já que, previamente, Hahnemann utilizou o método “dos contrários” e já conhecia os resultados. Hahnemann observou que tratando os doentes pelo princípio do semelhante eles obtinham uma cura muito mais duradoura do que aquela obtida através do princípio dos contrários.
Com o passar do tempo Hahnemann ratificava e resgatava a esquecida terapêutica pela Lei dos semelhantes, postulada há centenas de anos por Hipócrates.
O princípio do semelhante busca tratar um indivíduo doente com uma substância (medicamento) capaz de provocar os mesmos sintomas da doença num indivíduo sadio, na experimentação científica.
Seria assim: num indivíduo com problema de gastrite, a homeopatia irá medicá-lo com uma substância que foi capaz de causar a mesma gastrite que este indivíduo possui, na experimentação científica. Isto constitui a lei do semelhante, a base primordial, a essência da Homeopatia. Da lei dos semelhantes, por sua vez, derivam os outros 3 pressupostos fundamentais da Homeopatia: a experimentação no homem são (sadio), medicamento único e individualizado e por fim, medicamento diluído e dinamizado.
Cada medicamento homeopático provoca uma série de sintomas na experimentação clínica, que por sua vez, devem ser semelhantes aos sintomas do indivíduo que está doente para que ele restabeleça o estado de saúde.
Hahnemann, durante os experimentos, observou que cada substância experimentada não provocava somente sintomas de ordem física mas também de ordem mental, emocional e geral como sensação de frio, calor, alterações de transpiração, sono, humor e etc. Não era somente um órgão específico que a substância suscitava sintomas mas no corpo todo. Em decorrência deste fato, Hahnemann postula que é indispensável encontrar o medicamento que mais se assemelhe ao doente de forma global, contemplando todos os sintomas, os objetivos que são os de ordem física, e os subjetivos, que são de ordem geral, emocional e mental. Isto é indispensável para que o doente venha a curar o seu mal de forma plena e duradoura. É isso que chamamos de medicamento individualizado: o medicamento que será prescrito para tratar uma gastrite, será aquele que foi capaz de causar, na experimentação científica, a mesma gastrite que o doente apresenta, associado com os sintomas subjetivos que fizeram parte do quadro na experimentação.
É por isso que o médico homeopata se interessa por particularidades individuais que o médico alopata não se interessa, diferindo da anamnese clássica que aborda apenas os sinais e sintomas nosológicos do órgão doente.
O outro pilar da Homeopatia é o medicamento diluído e dinamizado. Este diz respeito ao processo específico de preparação do medicamento, que consiste de diluição em escalas padronizadas juntamente com sucessivas sucções, processo que é chamado de dinamização.
No início, Hahnemann utilizava substâncias em doses ponderais, ou seja, maciças. Observou que os pacientes tinham uma agravação muito forte dos seus sintomas já que o medicamento era semelhante. Decidiu diluir os medicamentos em substância inerte, ou seja, um diluente que tem propriedade de não alterar a outra substância quando em contato, com a finalidade de amenizar as agravações. Passou a realizar os experimentos com medicamentos dinamizados e observou que isso não prejudicava a sua ação mas pelo contrário, aumentava-se o poder de cura da substância.
Verificou que quanto mais diluído era o medicamento, maior era a sua resposta curativa pois os pacientes obtinham uma melhora mais abrangente, profunda e duradoura dos seus sintomas.
A Homeopatia é uma medicina vitalista e sabemos que a medicina vitalista é uma ciência muito mais antiga que a descoberta da própria Homeopatia.
A medicina vitalista possui como base preceitual a existência de uma entidade físico-energética presente em todo ser vivente, chamada de força vital.
Segundo a medicina vitalista, a força vital é a responsável pelo equilíbrio do funcionamento de todo o nosso organismo, desde o nível sutil, emocional, psicológico, até o nível dos tecidos e órgãos. Todo desequilíbrio que observamos nos nossos tecidos e órgãos se iniciaram ou tiveram como causa primária a alteração ou desequilíbrio desta força vital, pois é ela que, se desequilibrando, irá suscitar as alterações fisiopatológicas encontradas no nosso corpo físico. Portanto, para a medicina vitalista, o nosso corpo físico é o “campo de efeitos” e a força vital é “campo das causas”. O medicamento dinamizado, utilizado na terapêutica homeopática, atua na nossa força vital desequilibrada.
Esta conclusão foi retirada dos exaustivos e detalhados experimentos de Hahnemann que, comparando as experimentações que fez com substâncias em doses maciças primeiramente e posteriormente com as diluídas, observou que o medicamento dinamizado suscitava e curava não somente os distúrbios de ordem física mas também os de ordem geral e emocional do doente. Medicamentos em doses maciças não “tocam” a força vital do organismo mas apenas o nível celular, tecidual, orgânico.
É por isso que dizemos, sem constrangimentos, que a Homeopatia tem o potencial de tratar o indivíduo desde a “sua raiz”, ou seja, de atingir a causa da doença no seu nível primário e não apenas suprimir os sintomas físicos, o que seria tratar somente as consequências.
Evidentemente, como toda ciência, a Homeopatia possui limitações no tratamento quando este possui indicação cirúrgica, lesões incuráveis ou quando se está diante de um órgão que já não funciona mais. Um coração que já não consegue bombear o sangue adequadamente, um pâncreas que não produz insulina, um pulmão que já não consegue realizar a oxigenação adequada do sangue constituem exemplos de alterações, na grande maioria, irreversíveis. A homeopatia não irá reverter estes estados. Ela poderá abrandar os sintomas incômodos da falta de um funcionamento adequado de um órgão mas não irá fazer este órgão voltar ao seu estado de pleno funcionamento.
Também, não se deve utilizar a Homeopatia em casos agudos com risco de morte iminente como é o caso de infarto agudo do miocárdio, edema agudo de pulmão ou um AVC. Nesses casos é prioritário manter a vida do paciente devendo-se utilizar a terapêutica que irá reverter o quadro imediatamente, que nestes casos é a terapêutica “dos contrários” que cumpre este papel.
A homeopatia trabalha com o estímulo da nossa força vital e a resposta do nosso organismo a esse estímulo demanda um certo tempo, que difere de indivíduo para indivíduo e doença para doença. Por isso, nos casos de riscos de vida, nós homeopatas não concordamos que se deva utilizar a homeopatia pois que não conseguimos prever exatamente o tempo de resposta ao estímulo do medicamento e nesses casos se faz necessário o controle do fator tempo pois a vida do paciente está em jogo.
A Homeopatia trata toda e qualquer tipo de doença, seja ela aguda ou crônica.
Para as doenças irreversíveis, ela proporciona uma melhora de sintomas gerais como dor, sensação de calor excessivo, sensação de frio, transpiração alterada, sono alterado, além de um bem estar mental e emocional, quando possíveis.
A Homeopatia preconiza o uso de um medicamento de cada vez. Este é um dos 4 pilares básicos da Homeopatia. É aquele medicamento mais semelhante possível ao doente, também chamado por nós homeopatas de “medicamento de fundo”. Será dado um único medicamento mesmo que você possa estar doente de mais de uma doença. Este “medicamento de fundo” irá tratar de todos os seus sintomas. Às vezes, o médico homeopata precisa utilizar mais de um medicamento, devido a uma situação peculiar, porém isso não será o habitual. O uso de um medicamento único é conhecido como a Homeopatia Unicista, que nada mais é do que a homeopatia genuína postulada por Hahnemann.
A Homeopatia utiliza medicamentos dos 3 reinos da natureza: mineral, vegetal e animal.
Outro fato importante, a Homeopatia não é inócua. Muitos acreditam que se não fizer bem, mal também não faz. Isso não é verdade. Quando mal empregada, pode provocar alterações devendo-se evitar a auto-medicação. Por isso é muito importante que o tratamento seja acompanhado por um médico homeopata.
O tratamento homeopático possui direta relação com a duração e gravidade de doença, podendo ser breve ou mais demorado o seu tratamento.
É por tudo isso que o ato de prescrever um medicamento homeopático é muitas vezes tão complexo e requer muito estudo e observação por parte do médico.
Nossa imensa admiração e gratidão a este homem, Samuel Hahnemann, que deixou para a humanidade um recurso terapêutico de imenso valor, do qual nos enchemos de satisfação por conhecê-lo e praticá-lo no seu mais puro e legítimo fundamento.
Pintura de 1857 de Alexandre Egorovich mostrando Dr Samuel Hahnemann (de azul escuro),
Asclépio ( vermelho) e Atenas ( azul claro e dourado). Os três observando a medicina ineficaz
e arbitrária da época.
Referência Bibliográfica:
- http://www.bvshomeopatia.org.br/artigo/EvidenciaCientificadelModeloEpistemologicoHomeopaticoArtigo.pdf.
- http://www.aph.org.br/revista/index.php/aph/article/view/61/79
- O Organon da arte de curar. Samuel Hahnemann 5 edição. Editora Organon.
- Da Alquimia á Homeopatia. Renan Ruiz. Editora Unesp 2002.
- Homeopatia: Medicina Eficiente. Paulo Rosenbaum. Editora Publifolha.
- Homeopatia – Medicina Interativa, História lógica da Arte de Cuidar. Paulo Rosenbaum. Editora Imago.
- Fundamentos Hermenêuticos da Medicina Homeopática. Paulo Rosenbaum. Editora Hucitec.
- www.homeozulin.med.br
- www.gilsonfreire.med.br
História da homeopatia no Brasil
Texto editado por Eduardo Filgueiras a partir de trabalho organizado por:
Mário Antônio Cabral Ribeiro - Médico Homeopata
Março de 2010
Logo no início do século XIX, ainda em 1810, quando Samuel Hahnemann ainda estruturava as diretrizes da medicina homeopática, José Bonifácio de Andrada e Silva (o Patriarca da Independência), conheceu a teoria homeopática por meio de cartas com Hahnemann.
José Bonifácio era um naturalista dedicado com destaque na mineralogia e Hahnemann era um excelente conhecedor de química e farmácia na época, e isto os aproximou.
Hahnemann, apresentou-lhe a Homeopatia, mas esta não despertou o seu interesse.
Por volta de 1836, surgiram os primeiros fatos oficiais em relação à Homeopatia. Neste ano, a Academia Imperial de Medicina publicou artigos que tratavam sobre a doutrina homeopática falseando e deturpando as colocações feitas por Samuel Hahnemann, no Organon da Arte de Curar, editado em 1826.
Alguns homeopatas estrangeiros se estabeleceram no Brasil antes da chegada do francês Benoït Jules Mure.
Um deles, Frederico Emílio Jahn, cidadão suíço imigrado, que em 1836, defendeu tese em medicina, no Rio de Janeiro, sobre a proposta Terapêutica de Hahnemann.
Esta tese, feita por um médico que não exerceu a Homeopatia, serviu, posteriormente, de base para o aprendizado do primeiro médico homeopata do Brasil, que foi o Dr. Duque-Estrada (Domingos de Azevedo Coutinho de Duque-Estrada).
Outros foram: Thomaz Cochrane, médico escocês formado pela Universidade de Londres, que chegou ao Rio de Janeiro em 1829; e o francês Emílio Germon, autor do Manual Homeopático, editado em 1843.
leia mais...
Em 1840, aportou, no Rio de Janeiro, no dia 21 de novembro, data escolhida para a comemoração da homeopatia no Brasil, a barca francesa Eole, a bordo da qual estavam Benoit Jules Mure e mais de cem famílias francesas.
Bento Mure, como ficou conhecido, veio ao Brasil implantar uma colônia societária que fazia parte de um plano - "phalanstero" - para formar a base de uma comunidade industrial conforme as propostas sociais de Charles Fourier.
Mure nasceu em Lyon, na França, em 1809, no sétimo mês de gestação e com um quarto de um dos pulmões.
Foi salvo pela Homeopatia em 1833, quando tuberculoso, foi curado pelo Conde Sébastien des Guidi que introduzira a Homeopatia em Lyon, onde a praticou de 1830 a 1863.
Dr. Benoït Jules Mure formou-se em medicina em Montpellier. Em 1837, imbuído pelo desejo missionário de difundir a homeopatia, dirigiu-se à Sicília e à Malta.
Em Palermo, fundou um dispensário que posteriormente foi convertido em Academia Real de Medicina Homeopática.
Quando retornou à França em 1839, fundou, em Paris, um dispensário na rue de la Harpe, onde, eram atendidos com seus colaboradores, mais de mil doentes por semana.
Em sua curta estada no Rio, mais propriamente na Lapa, o Dr. Mure clinicou e difundiu a Homeopatia através de suas curas "miraculosas".
Neste período, conheceu o Dr. Souto Amaral, célebre cirurgião brasileiro, que veio a abraçar a Homeopatia através de seus ensinamentos.
Após ter recebido licença do Governo Imperial e ter escolhido o local para a implantação de sua colônia, Bento Mure partiu, em 22 de dezembro, com as cem famílias, a bordo do navio Caroline para colonizar a península do Sahy, na divisa do Paraná com Santa Catarina, no encontro dos rios São Francisco e Sahy.
Mure, como médico homeopata, viera entretanto, com o fim não de difundir a homeopatia no Brasil, mas de realizar um projeto de fundo social.
Antes de voltar para o Rio de Janeiro, Mure instalou o Instituto Homeopático do Sahy, em 1842, e uma Escola Suplementar de Medicina, com o objetivo de preparar médicos já diplomados na arte homeopática, sob orientação do Dr. Thomaz da Silveira, médico militar, convertido à Homeopatia por ele.
Quando desde meados de 1843 abandonou a colônia, dedicou-se a dar continuidade às atividades que iniciara já em 1841, no Rio de Janeiro, como médico homeopata.
No período posterior a 1840, a Homeopatia foi largamente discutida pela imprensa, principalmente no jornal do Comércio. Sua imagem era denegrida através dos professores e grandes doutores em medicina, da Bahia e do Rio de Janeiro, e arduamente defendida pelo próprio editor do jornal, o Dr. José da Gama e Castro, que abria espaço permanente para as matérias polêmicas de Dr.João Vicente Martins e para os homeopatas da época. Através do Jornal do Commércio, divulgava já em 1841 o projeto para a formação de um Instituto Escola Homeopático.
Em dezembro de 1843, junto com Vicente José Lisboa, fundou o Instituto Homeopático do Brasil, no local do primeiro consultório homeopático na cidade do Rio de Janeiro, à Rua São José, nº 59, com o objetivo de propagar a homeopatia em favor dos pobres. Inicialmente, a sociedade contou com 72 sócios fundadores.
A primeira diretoria do Instituto Homeopático do Brasil ficou constituída por Benoit Jules Mure (presidente); Vicente José Lisboa (1º secretário) e Domingos de Azevedo Coutinho Duque-Estrada (2º secretário).
Em 1844, já existiam vários consultórios médicos destinados à propagação da nova ciência através de atendimento a pacientes, além da preparação dos medicamentos homeopáticos.
Bento Mure era ambicioso e desde o princípio projetava equiparar a homeopatia no Brasil ao patamar em que era praticada no exterior.
Para isso, o primeiro passo seria o da divulgação da nova ciência e, em seguida, o da criação de uma Escola capaz de formar médicos homeopatas e formá-los dentro dos princípios Hahnemannianos puros.
A Escola devia ainda proporcionar um ensino teórico (história da homeopatia, cursos de terapêutica, posologia e farmacologia) e prático (experiências no homem são, prática à cabeceira dos leitos e preparo de remédios).
Assim, em 12 de janeiro de 1845, durante reunião anual do Instituto Homeopático do Brasil, foi apresentado, pelo Dr. João Vicente Martins, um plano de criação de uma Academia de Medicina Homeopática e Cirurgia.
Os estatutos foram redigidos e foi então fundada e inaugurada, à Rua São José, nº 59, a Escola Homeopática do Brasil (primeira escola de formação homeopática), que funcionava com autorização do Governo Imperial, mas que não permitia aos seus diplomados o exercício da clínica.
Em seus primeiros anos de existência, o Instituto difundia a homeopatia através da instalação de outros consultórios pela Corte e interior das províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, tendo à frente dessa iniciativa Benoit Jules Mure e João Vicente Martins.
Além destes postos de atendimento, Bento Mure, e João Vicente Martins, diplomado em Lisboa, criaram mais 26 locais de assistência ambulatorial.
Eram principalmente os médicos homeopatas, quase os únicos, que atendiam à população carente e escrava nesta época.
Além dos consultórios, fundaram também uma farmácia homeopática denominada Botica Homeopática Central, localizada no mesmo endereço do consultório central (Rua São José, 59), considerada a primeira instalada no Brasil, e a Casa de Saúde Homeopática na chácara do Marechal Sampaio (Largo do Castelo, 17), fundada em fevereiro de 1846.
Para difundir os progressos da homeopatia no Brasil, Mure e seus companheiros fundaram uma revista, chamada “A Sciência”, que começou a circular em 1847.
Além de uma discussão teórica, a revista divulgava também dados interessantes sobre o movimento homeopático que tomava impulso no país.
Em setembro de 1847, divulga-se pela revista, por exemplo, que o consultório homeopático da Rua São José, atendia por mais de três horas por dia, tinha três mesas de consulta que no prazo de uma semana chegam a atender a 100 pacientes, que teria recebido 3 mil doentes no prazo em que o de Nova York recebera apenas 100.
Por ocasião da epidemia de febre amarela que afetou várias cidades do Brasil em 1850, o Instituto atuou no Rio de Janeiro, oferecendo tratamento gratuito aos pobres recolhidos na enfermaria de São Vicente de Paulo, fundada e mantida pela Sociedade Portuguesa de Beneficência, e no seu consultório central.
Na segunda metade do século XIX a Medicina se torna mais científica a marca principal desta fase sendo as descobertas de Louis Pasteur que desvendaram o mundo microbiológico.
Enquanto isso a Homeopatia se difundia pelos sertões do Brasil através de boticas com medicamentos e orientações de uso conforme os sintomas; tratadores populares ganharam experiência nos tratamentos em um tempo que a Medicina Científica tinha mínimos recursos terapêuticos.
Neste período a Homeopatia adentra ainda mais a sociedade brasileira sendo vinculada ás ideias de Allan Kardec; destaca-se neste aspecto o médico Bezerra de Menezes como defensor e praticante em ambos os campos: kardecista e homeopático. A presença da Homeopatia nos centros espiritas é ainda marcante. Isso favorece para a população no seu senso comum compreenda erroneamente que quem pratica a Homeopatia seja também da doutrina espírita.
Bezerra de Menezes a partir de sua atividade assistencial teve um papel importante na dimensão ética, humanitária e social da prática da Homeopatia.
Fundado em 1859 o INSTITUTO HAHNEMANNIANO DO BRASIL- IHB- uma sociedade civil de caráter cientifico e cultural voltada para a Homeopatia - é ainda na atualidade um centro de formação, pesquisa e cultura em HOMEOPATIA.
Em 1912 o IHB constituiu a Faculdade Hahnemanniana e o Hospital Hahnemanniano.
Em 1918 o IHB é reconhecido como de Utilidade Pública consolidando sua atuação educativa e social.
Teve papel fundamental neste período o homeopata Licínio Atanásio Cardoso.
Na primeira fase do século XX destacamos a figura de Nilo Cairo – médico e engenheiro – que contribuiu com a publicação de Guia de Medicina Homeopática que ainda hoje é referência de prática da Homeopatia.
Por seu brilhantismo intelectual Nilo Cairo é considerado um dos precursores da Universidade (Federal) do Paraná.
Nesse período foram constituídas Ligas Homeopáticas em vários estados brasileiros: Rio Grande do Sul; Paraná; São Paulo, são a origem histórica de Associações Homeopáticas ainda atuantes. Também na Bahia; Ceará; Pernambuco núcleos de difusão da Homeopatia são o embrião de entidades ainda atuantes.
Em 1926 a realização do I CONGRESSO BRASILEIRO DE HOMEOPATIA é um marco na institucionalização da Homeopatia em nosso país pois simboliza a consolidação de uma identidade científica coletiva para o conjunto dos homeopatas dispersos em sua prática. Nesta oportunidade Jose Emygdio Galhardo – historiador – apresenta seu trabalho que trata da História da Homeopatia no Brasil desde 1818, obra de referência para os que querem conhecer á fundo o assunto.
Os anos seguintes são descobertas e invenções da Ciência cada vez mais capaz de medir, decompor e reproduzir as forças da Natureza até então não vistas e não compreendidas; e da aplicação destes avanços na Medicina. Raio X, antibióticos, radiação química: muitas novidades. Para a HOMEOPATIA, já enraizada socialmente e organizada em organizações sociais, um período de resistência silenciosa.
Somente em 1950 foi organizado o “II Congresso Brasileiro de Homeopatia” - momento de reagrupamento dos núcleos homeopáticos ainda dentro da onda da Medicina Científica intensificada com a multiplicação das novidades cientificas.
A não inserção da HOMEOPATIA na grade curricular universitária da Medicina empurra a prática da HOMEOPATIA para fora do campo da Ciencia.
A partir do “II Congresso Brasileiro de Homeopatia, os congressos médicos homeopáticos brasileiros mantêm uma média bianual.
Neste cenário, a Homeopatia, no Brasil, recebeu novo impulso, a partir do XIII Congresso Brasileiro de Homeopatia e I Encontro Nacional de Estudantes Interessados em Homeopatia (I ENEIH), no Rio de Janeiro em abril de 1977.
Dali saíram, reforçados, incipientes grupos para a difusão da Homeopatia em todo o Brasil.
Das discussões encabeçadas pelos grandes pólos homeopáticos do país, nasceu na data de 24 de novembro de 1979 a Associação Médica Homeopática Brasileira – AMHB que é a atual representante dos médicos homeopatas do país.
No ano de 1980, houve uma grande conquista para a HOMEOPATIA no Brasil, que foi o reconhecimento pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) da Homeopatia como Especialidade Médica, através da resolução CFM nº 1.000, de 04 de junho de 1980.
Figura importante desta articulação foi o Dr. Alberto Soares de Meirelles.
Em 1982 o CFM estabelece as instruções para obtenção do Título de Especialista em Homeopatia.
No XIX Congresso Brasileiro de Homeopatia de 1988 em Gramado, Rio Grande do Sul, finalmente a AMHB passa a ter força, saindo deste Congresso com uma diretoria que implementou todos os objetivos e anseios de uma associação nacional de médicos homeopatas, consolidando um trabalho de 10 anos de expansão e consolidação institucional da homeopatia no Brasil.
Ainda em 1988, a AMHB passa a ser reconhecida oficialmente pela Associação Médica Brasileira (AMB) e a fazer parte do Conselho de Especialidades Médicas da AMB.
Homeopatia no SUS – sistema único de saúde
A Homeopatia tem sua importância na saúde pública não somente pela vantagem de sua forma de tratamento, como também pelo seu baixo custo, ajudando a melhorar o sistema de atenção médica nacional, e tendo muito mais a ver com as condições e a índole do povo brasileiro. Encontra-se possibilitada a sua expansão pela reforma sanitária vigente no país, que procura mudar o modelo assistencial atual, em face da constatada falência do mesmo.
A Homeopatia faz parte da política oficial de saúde pública desde a década de 80, entretanto são ainda poucas as cidades no Brasil que oferecem esta especialidade médica como opção.
Em 1986 a VIII Conferência Nacional de Saúde recomendou a introdução de práticas alternativas de assistência à saúde no âmbito dos serviços de Saúde, possibilitando ao usuário o acesso democrático de O trabalho homeopático desenvolvido até agora, no SUS, ainda que por demais pequeno em relação ao nosso país, propiciou, junto com o desenvolvimento da Homeopatia aqui e no mundo todo, a “Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde”, que foi assinada pelo Ministro de Estado da Saúde, interino, Dr. José Agenor Álvares da Silva, em 04 de maio de 2006, através da Portaria 971.
Atualmente estão sendo criadas em diversos estados brasileiros “Políticas estaduais de Práticas Integrativas e Complementares” no SUS, políticas estas já criadas em alguns estados como São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais.
A FARMÁCIA
A Lei nº 1.552, de 8/7/1952, tornou obrigatório o ensino de Noções de Farmacotécnica Homeopática nas Faculdades de Farmácia do Brasil. O Decreto nº 57.477, de 20/12/1965, regulamenta a manipulação, receituário e venda de produtos utilizados em homeopatia.
Pelo Decreto nº 78.841, de 25/11/1976 (suplemento nº 4 do Diário Oficial de 6/1/77), aprovada a Parte Geral da Farmacopéia Homeopática Brasileira.
A Farmacopéia Homeopática Brasileira teve publicação autorizada pelo Ministério da Saúde através do Processo nº 4.556/77 - RJ, com base no artigo 6º do referido decreto e foi publicada ainda em 1977.
No XIX Congresso Brasileiro de Homeopatia surgiu o germe da Em 1990 foi fundada a Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas - ABFH.
A ação da ABFH tem sido muito importante na padronização das medicações, supervisão de preparação, fonte das tinturas, modo de aviação, etc.
Em 1992, a Homeopatia é reconhecida como especialidade farmacêutica pelo Conselho Federal de Farmácia (Resolução nº 232).
A VETERINÁRIA
Em 2000 a Homeopatia foi reconhecida como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (Resolução nº 622).
Os veterinários brasileiros já contam com a intensa atividade de sua entidade nacional, a Associação Médico Veterinária Homeopática Brasileira, criada em 1993.
Homeopatia - Prática Médica
ADRIANA MARIA DE FIGUEREDO
Doutora em Ciências Humanas
Professora Titular da UFOP
Socióloga
Homeopatia é um sistema terapêutico com uma visão integral da saúde. Como ciência é contemporânea da Medicina Ocidental Moderna, a biomedicina.
Constitui uma das diferentes racionalidades médicas presentes na contemporaneidade (Tesser e Luz, 2008).
Como tal, é “um conjunto integrado e estruturado de práticas e saberes composto de cinco dimensões interligadas: uma morfologia humana (anatomia), uma dinâmica vital (fisiologia), um sistema de diagnose, um sistema terapêutico e uma doutrina médica (explicativa do que é a doença ou adoecimento, sua origem ou causa, sua evolução ou cura), todas embasados em uma sexta dimensão implícita ou explícita: uma cosmologia.”
Esta visão foi desenvolvida no Brasil por um Grupo de Pesquisas do Conselho Nacional de desenvolvimento científico e tecnológico (CNPq) liderado pela professora Madel Luz, que, desde 1992 estuda a multiplicidade de saberes e práticas presentes na sociedade e nas instituições de saúde, em uma visão sócio-política, filosófica e sociológica.
leia mais...
O surgimento da Medicina homeopática foi revolucionário tanto sobre o aspecto clínico como conceitual, pela maneira como aborda a saúde e a enfermidade (Dancinger, 1992).
Sua teoria, sua prática e seus métodos apresentam, em seus primórdios, um contraste com a medicina científica que começava a se constituir na ocasião do seu surgimento.
A racionalidade científica em avanço, desde o século XVII, possibilitou a construção de grandes teorias médicas em um modelo em que predominava a clínica baseada nas descobertas e estudos centrados na anatomia e na biologia em ascensão.
A homeopatia, embora parta da mesma fisiologia, anatomia e de uma consulta clínica semelhante em alguns pontos, mantém uma terapêutica diferente da concepção de organismo, saúde e doença na medicina clínica que começou no bojo desta racionalidade científica.
A biomedicina com seu apogeu no século XIX define a fisiologia fortemente pela anatomia patológica (estudo dos cadáveres) e pela etiologia (estudo das causas físicas) das doenças.
Enquanto que, para Hahnemann, criador da homeopatia, a saúde é o equilíbrio da energia ou força vital. Há, neste caso, uma definição afirmativa de saúde ligada ao princípio da harmonia do dinamismo vital. Este conjunto é, destaca a autora, o ponto de partida e chegada da clínica homeopata.
Como prática social, a homeopatia responde a um anseio pela saúde como um equilíbrio dos componentes naturais da vida e uma insatisfação com o modelo fragmentado fortemente presente na biomedicina.
Esta busca foi um dos elementos que propiciou, no final dos anos 1970, a retomada da homeopatia como prática terapêutica tanto por médicos, quanto por pacientes.
Em Minas Gerais esse processo foi consolidado com a institucionalização da formação em homeopatia de forma estruturada e certificada por entidades profissionais e acadêmicas, referendadas pelos Conselhos Profissionais Regionais e Federais.
Temos atualmente, a homeopatia reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, desde 1980. Presente no Sistema Único de Saúde e na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.
Vemos, então, que hoje temos um modelo em que há a complementaridade das diferentes racionalidades em saúde com a ampliação da perspectiva biológica para a compreensão das relações entre saúde e modos de vida, a noção de que a pessoa é um todo e que o corpo corresponde a um sistema dinâmico, sendo a doença um processo (Barros,2000).
Um modelo possível como superação da exclusividade terapêutica da biomedicina, com a aceitação da homeopatia no seio da sociedade e superação de conceitos clássicos, dualisticamente opostos.
Referências:
BARROS, N. F.. A construção de novos paradigmas na medicina: a medicina alternativa e a medicina complementar. In: CANESQUI, Ana Maria. Ciências Sociais e Saúde para o ensino médico. São Paulo: Editora Hucitec/Fapesp, 2000.
DANCINGER, E.. Homeopatia; da alquimia à medicina. São Paulo: Xenon, 1992.
LUZ, M. T.. Natural, Racional, Social: Razão médica e racionalidade científica moderna. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
TESSER, C. D.; LUZ, M. T.. Racionalidades médicas e integralidade. Ciência & Saúde Coletiva, v. 13, n. 1, p. 195–206, jan. 2008.
Samuel Hahnemann - Uma autobiografia
*Texto reformatado a partir de texto original com o mesmo título organizado por Mario Antônio Cabral Ribeiro, Médico Homeopata; publicado originalmente no site da AMHMG)
Em 1755, nasce Christian Friedrich Samuel Hahnemann, em Meissen, na Saxônia, Alemanha, na virada do dia 10 para o dia 11 de abril. Ele mesmo sempre comemorou o seu aniversário no dia 10, embora no registro de seu nascimento na Igreja de Frauenkirche esteja escrito que o seu nascimento ocorreu no início da manhã de sexta feira, 11 de abril de 1755.
Em relação à infância de Hahnemann, são raras as fontes de informação. Podemos nos basear mais em sua autobiografia, escrita em 30 de agosto de 1791:
“Nasci no dia 10 de abril de 1755, no Distrito Eleitoral da Saxônia, uma das regiões mais belas da Alemanha. Isto pode ter contribuído em grande medida para minha veneração pelas belezas da natureza, conforme ia crescendo para a humanidade”.
“ Meu pai, Christian Gottfried Hahnemann, junto com minha mãe, Johana Christiana, ensinaram-me como ler e escrever enquanto brincava. Meu pai faleceu há quatro anos atrás (1787). Sem ser profundamente versado em ciência – ele era um pintor para a fábrica de porcelana daquela cidade e autor de um pequeno ensaio sobre aquarela – ele descobriu sozinho as mais profundas concepções daquilo que é bom e pode ser considerado digno de um homem.”
leia mais...
“Estas idéias ele implantou em mim. “Agir e viver sem pretensões nem ostentações”, era o seu conceito mais notável, o que me impressionava mais pelo seu exemplo do que pelas suas palavras. Ele estava frequentemente presente conquanto sem ser notado, onde alguma coisa boa estivesse para se realizar! Não deveria eu segui-lo? Em seus atos ele diferenciava entre o nobre e ignóbil a um tal grau de sutileza de correção e delicadeza prática de sentimentos, como era altamente honroso para ele; neste sentido ele foi meu mestre. Suas ideias a respeito dos princípios iniciais da criação, da dignidade do homem, e seu elevado destino, pareciam consistentes em todas as formas com o seu modo de vida. Isto foi o fulcro da minha educação moral.’
“Eu passei diversos anos na Escola da Cidade de Meissen, quando por volta dos dezesseis anos de idade (1771) eu frequentei a Escola Principesca daquela cidade.
“Não há algo de especial a ser mencionado sobre mim naquela escola, exceto que o reitor da Escoa Principesca, Magister Müller, me amava como se eu fosse seu próprio filho. Ele foi meu professor de línguas antigas e de composição germânica; ele ainda vive e o mundo e eu temos para com ele uma grande dívida de gratidão, pois em honestidade e diligência poucos poderiam se igualar a ele. Ele me concedeu liberdade em meus estudos, pelo que sou grato até hoje, e que exerceram uma influência perceptível em meus subsequentes estudos. Apenas eu – estava amiúde me queixando de estudar em demasia – apenas eu obtive consentimento de ausentar-me das aulas que considerasse inadequadas, de abster-me de enviar os exercícios e cópias escritas dos outros cadernos, e de não ler livros estrangeiros durante as aulas. Tudo isto junto significa muita coisa, considerando que se tratava de uma Escola Principesca, da Saxônia.”
“Em meu 12º ano de idade, ele me autorizou a transmitir aos outros os rudimentos da língua grega. Ele também escutava com delicadeza, durante as aulas particulares que eu mesmo dava aos seus pensionistas, minhas exposições críticas dos antigos escritores, e ele frequentemente preferia minha opinião à sua própria”.
“Tinha livre acesso a ele a qualquer hora do dia; em muitos aspectos eu frequentemente tinha a preferência, em detrimento de muitos outros alunos, e não obstante, é estranho dizer que todos os meus companheiros me estimavam”
“Aprender aquilo que estava lendo, ao invés de ler em excesso, ler pouco mas corretamente, e classificar em minha mente o trecho já lido antes de continuar com a leitura.”
“ Meu pai não queria absolutamente que eu estudasse; ele repetidamente me tirava da escola da cidade, durante períodos de mais de ano por vez, de modo que eu pudesse buscar alguma ocupação mais adequada aos seus rendimentos. Meus professores impediram isso recusando todo pagamento pela minha escolarização ao longo dos últimos oito anos; rogaram a ele que me deixasse aos cuidados deles para que eu pudesse prosseguir em minha inclinação pelo estudo. Meu pai não resistiu aos seus rogos, mas não poderia fazer mais coisa alguma por mim.”
Na páscoa, no ano de 1775, tive a oportunidade de ir para Leipzig com a quantia de 20 táleres para meu sustento; o último dinheiro que recebi de suas mãos. Ele tinha vários outros filhos para educar a partir de seus parcos recursos. Isto é desculpa suficiente para justificar o melhor dos pais.
“Ensinando alemão e francês para um jovem grego de posses, oriundo de Jassy na Moldávia, bem como por meio de traduções do inglês, procurei eu mesmo, durante um tempo, os meios de subsistência, pois eu pretendia sair de Leipzig após uma permanência de dois anos.”
“Posso testemunhar por mim mesmo que também em Leipzig pratiquei a máxima de meu pai: nunca ser um ouvinte ou um aprendiz passivo. Mas aqui eu não esqueci de modo algum de garantir, através de exercícios físicos e de ar puro, aquela energia e o vigor corporais os quais, sozinhos, capacitam o corpo a suportar exitosamente o esforço de um esforço mental contínuo.”
“Em Leipzig, eu comparecia apenas às aulas que eu considerava proveitosas, apesar do fato de que Bergrath Pörner, de Meissen, teve a gentileza de usualmente me fornecer passes livres para as aulas de todos os professores de medicina. Eu estudava privativamente o tempo todo, sempre lendo o que era melhor adquirível e apenas na medida em que eu podia assimilar.”
“A inclinação para o lado prático da medicina, para o qual não existia instituição alguma em Leipzig, induziu-me a ir para Viena às minhas próprias custas. Uma maliciosa armadilha gracejada comigo, e que me espoliou de minhas economias adquiridas em Leipzig (arrependimento exige reconciliação e farei silêncio sobre nomes e circunstâncias) teve por consequência o fato de que eu fui compelido a abandonar Viena após uma estadia de nove meses.”
“Sou grato por meu instinto médico, ao hospital dos Irmãos de Caridade de Leopoldstadt, ou melhor, ao grande gênio prático do Dr. Von Quarin, médico a serviço da família do príncipe. Eu contava com sua amizade, poderia quase dizer, com o seu amor; eu era o único, naquela ocasião, que ele permitia acompanhá-lo nas suas consultas aos seus pacientes particulares. Ele me elegeu, estimou e me ensinou como se eu tivesse sido um de seus primeiros pupilos em Viena, ou mais do que isso, e tudo sem jamais ser capaz de esperar de minha parte qualquer remuneração.”
“Minhas últimas migalhas de subsistência estavam prestes a desaparecer quando o Governador da Transilvânia, Barão von Bruckenthal, convidou-me em termos honrosos a ir para Hermanstadt com ele, como seu médico de família e guardião de sua importante biblioteca. Aqui eu tive a oportunidade de aprender várias outras línguas necessárias, e de adquirir conhecimento de algumas ciências colaterais, nas quais eu ainda estava falho. Organizei e cataloguei sua incomparável coleção de moedas antigas, bem como sua biblioteca, pratiquei medicina por um ano e nove meses em sua populosa cidade, e depois me separei, embora muito a contragosto, daquelas honradas pessoas, para receber em Erlangen meu grau de Doutor em Medicina, algo que estava agora apto a fazer, a partir das minhas próprias conquistas.”
“Sou grato pelos muitos favores e pela grande instrução dada pelo Conselheiro Particular Delius e pelos Conselheiros Isenflamm, Schreber e Wendt. Hofrath Schreber ensinou-me o que ainda me faltava conhecer sobre botânica. Em 10 de agosto de 1779, defendi minha dissertação e em consequência disto recebi meu grau de Doutor em Medicina. Enquanto aguardava a realização da prova lecionava grego, latim, inglês, hebraico, italiano, sírio, espanhol e alemão. Com a tese em Erlangen: “Etiologia e terapêutica das afecções espasmódicas”, recebo o grau de doutor em Medicina.”
Em seguida instalei-me em Hettstadt, em Mansfeldschen, cidade de 3 a 4 mil habitantes, centro de minas de cobre. E retornei para lá a fim de começar minha carreira como médico praticante na pequena cidade mineira de Hettstädt, em Mansfield. Ali era impossível se desenvolver mental ou fisicamente, e eu parti para Dessau na primavera de 1781, após uma estadia de nove meses”.
Em 1781 Samuel Hahnemann vai morar em Dessau, a 50 quilômetros de Hettstädt. Aí se apaixona por Johanna Henriette Leopoldina Küechler,. Neste ano publica “Os Primeiros Ensaios Médicos” onde há um artigo sobre o câncer, despertando o interesse do mundo médico para si. Escreveu também “Guia para Tratamento das Velhas Chagas e Úlceras”, publicado, em Leipzig, em 1784.
Pela primeira vez Hahnemann ataca as concepções médicas, sem demonstrar respeito pela ciência da época e sem consideração pelos seus colegas, censurando-os por se nivelavam a barbeiros e carrascos, praticando a medicina mais por ignorância do que por convicção.
“É a eleição do medicamento e a maneira de usá-lo que caracteriza o verdadeiro médico, o que não está ligado a nenhum sistema, que recusa o que não é investigado por ele mesmo e não toma a palavra de outrem, tendo a coragem de pensar por si mesmo e tratar de acordo com isto”.
“Nessa localidade eu encontrei uma sociedade mais adequada para mim e mais facilidade para obter conhecimentos. O estudo da química ocupava minhas horas de lazer, e isto junto com pequenas viagens para aprender a ciência da mineração e a metalurgia, preencheram algumas lacunas consideráveis em minha educação. Próximo ao final do ano de 1781, recebi uma indicação insignificante como Oficial Médico de Saúde, para Gommmern, próximo a Magdeburg. O salário razoavelmente substancial oferecido levou-me a procurar uma melhor fonte de renda, bem como uma ocupação mais condizente neste posto, do que encontrei durante os dois anos e nove meses que havia permanecido ali. Nenhum médico tinha ainda fixado residência naquele pequeno lugar e as pessoas não tinham utilidade para um. Todavia ali eu comecei a gozar pela primeira vez das inocentes alegrias da vida doméstica.”
Dos 30 aos 35 anos, de 1785 a 1790, Hahnemann escreveu trabalhos originais e traduziu obras estrangeiras que reunidas representam mais de 3.500 páginas. Destes trabalhos destaca-se o “Envenenamento pelo arsênico”, determinando os meios de detectar seu envenenamento. Com isto contribuiu para a proibição livre de sua venda como “pó para a febre”. Experimentou muitos medicamentos em cães, documentando suas observações com 861 experiências recolhidas de vários autores. Depois de 2 anos e 9 meses em Gommern,
Permaneceu 4 anos em Dresden, dedicado à clínica, escritos e estudos. Estabeleceu relações com Lavoisier e substituiu o Dr. Wagner como diretor de saúde pública, despertando a inveja de seus colegas e surgiram calúnias e críticas injustas. Acusavam Hahnemann de não saber química.
No ano de 1791, a sociedade Econômica de Leipzig, e no dia 2 de agosto do mesmo ano, a Academia Eleitoral de Mainz, elegeram-me membro associado.
Apesar de ter atingido uma relativa prosperidade desde o tempo que residiu em Dresden, Hahnemann decide abandonar a medicina. Um certo dia, à hora habitual das consultas, participa aos clientes que resolvera abandonar a prática profissional da medicina.
O que mais influenciou esta decisão foi sua incapacidade de tratar das graves doenças que acometeram seus filhos. Hahnemann observara a ausência de base científica da terapêutica, sem uma lei diretriz, sem previsão. Uma medicina que fazia sofrer os doentes, onde era comum a aplicação de cáusticos violentos e sangrias.
A gota que transbordou foi a moléstia de um amigo. Hahnemann era o médico assistente de um dos seus melhores amigos, cujo estado era de prognóstico sombrio. Tentando um último esforço, prescreveu um ou mais medicamentos de sua confiança, considerados heroicos. Seu amigo, na manhã seguinte era um cadáver. Não suportou este golpe e com o cadáver do amigo foi sepultada a dúvida que ainda poderia ter sobre o valor da terapêutica alopática de sua época
“Onde pois achar recursos certos? Em torno de mim só encontro trevas e deserto. Nenhum conforto para meu coração oprimido. Oito anos de prática, exercida com escrupuloso cuidado, fizeram-me conhecer a ausência do valor dos métodos curativos ordinários. Não sei, em virtude da minha triste experiência, o que se deve esperar dos preceitos dos grandes mestres. Talvez seja, entretanto, própria da medicina, como diversos autores já têm dito, não conseguirmos atingir a um certo grau de certeza. Blasfêmia! Idéia vergonhosa!...”
“A infinita sabedoria do Espírito que anima o universo não teria podido produzir meios de debelar os sofrimentos causados pelas doenças que ele próprio consentiu viessem atingir os homens? A soberana paternal bondade daquele que nenhum nome dignamente poderia designá-lo, que largamente proveu as necessidades de animáculos invisíveis, espalhando em profusão a vida e o bem estar em toda a criação, seria capaz de um ato tão tirânico, não permitindo que o homem, seu semelhante, com o sopro divino, pudesse encontrar, na imensidade das coisas criadas, meios próprios para desembaraçar seus irmãos de sofrimentos muitas vezes piores do que a própria morte?”
“Ele, o Pai de tudo que existe, assistiria impassível ao martírio a que as moléstias condenam as mais queridas de suas criaturas, sem permitir ao gênio do homem, a quem facilitou a possibilidade de perceber e criar, de achar uma maneira fácil e segura de encarar as moléstias sob seu ponto de vista e de interrogar aos medicamentos para saber em que caso cada um deles pode ser útil, a fim de fornecer um recurso real e preciso?”
“Renunciarei a todos os sistemas do mundo a admitir tal blasfêmia. Não! Há um Deus bom, que é a bondade e a própria sabedoria. Deve haver, pois, um meio criado por ele de encarar as moléstias sob seu verdadeiro ponto de vista e curá-las com segurança. Um meio que não seja oculto nas abstrações sem fim, nas hipóteses, cujas bases sejam constituídas pela imaginação. Por que esse meio já não foi encontrado, há mais de vinte ou vinte e cinco séculos já passados, quando existiam homens que se diziam médicos?”
”É porque está muito próximo e muito fácil. Não há necessidade para lá chegar, nem de brilhantes sofismas, nem de sedutoras hipóteses. Portanto, como deve haver um meio seguro e certo de curar, tal como há um Deus, o mais sábio e o melhor dos seres, abandonarei o campo ingrato das explicações ontológicas. Não ouvirei mais as opiniões arbitrárias, embora tenham sido reduzidas a sistemas. Não me inclinarei diante da autoridade de homens célebres! Procurarei onde se deve achar esse meio que ninguém sonhou, porque é muito simples; porque ele não parece muito sábio, envolvido em coroas para os mestres na arte de construir hipóteses e abstrações escolásticas.” (trechos da carta que Hahnemann escreveu para Hufeland, em 1808).
Nos doze anos seguintes a 1789, Hahnemann mudou de residência vinte vezes, e vivia praticamente na miséria, com a mulher e seus filhos em um único quarto. Tendo abandonado a medicina, vivia de traduções, trabalhando dia e noite e fumando cachimbo para vencer o sono. Não clinicava, mas continuava estudando a medicina, à procura de algo que ele não sabia, mas pressentia existir: uma lei racional de cura. Ele já compreendia que a primeira condição para usar com vantagem os medicamentos era conhecer seus efeitos sobre o organismo humano.
Traduz a Matéria Médica de William Cullen, editada em Edimburgh, em 1788 e não se convence da ação terapêutica da China ser devida a uma ação fortificante sobre o estômago. A primeira experimentação de China officinales permitiu reformular o antigo princípio da similitude.
Assim, 1790 é considerado o ano do nascimento da Matéria Médica Homeopática. Hahnemann experimentou diversas substâncias e esperava a oportunidade de comprová-las publicamente.
Em 1792, influenciado pelo interesse do duque Ernesto de Saxe-Gotha, transferiu-se para Gotha. O duque colocou à disposição de Hahnemann uma parte de seu castelo de caça para servir de casa de saúde para enfermos mentais. Klockenbring era um escritor famoso e foi acometido de mania violenta em 1792. Foi tratado por 6 meses, sem sucesso, pelo Dr. Wichmann, notável alienista. Pinel tratou dele no Hospital de Bicetre, também sem sucesso. Klockenbring foi o primeiro cliente que Hahnemann tratou em Gotha.
Hahnemann acolheu Klockenbring com cuidado e gentileza. Observou, durante duas semanas o paciente, sem prescrever qualquer medicamento, tentando obter sua confiança. Depois realizou a prescrição que o restabeleceu e em 1793, Klockenbring regressou a Hanover, completamente restabelecido. Hahnemann curou outros casos de loucura e prescrevia por correspondência.
Como não conseguiu atrair muitos doentes para o castelo, resolveu abandonar a hospitalidade do duque, em maio de 1793, pouco depois da cura de Klockenbring. Instalou-se em Molschleben, uma vila a alguns quilômetros de Gotha. Surgiu uma epidemia de crosta láctea e seus filhos a contraíram, tendo sido curados por hepar sulphur.
Em 1794, instala-se em Pyrmont, em condições de grande miséria. Na viagem morre, em acidente, seu filho Ernesto.
Em 1796 foi morar em Königslutter, onde em 1799, a Belladona curou vários casos de uma epidemia de escarlatina.
Ainda em 1796 publica o primeiro ensaio sobre a nova doutrina: “Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes curativas das substâncias medicinais.” Escreveu um pequeno trabalho “Pequeno opúsculo de segredos úteis”. Seus adversários encontraram nele pretexto para atacá-lo. Os farmacêuticos o odiavam, pois Hahnemann reclamava para os médicos o direito de preparar seus medicamentos.
No outono de 1799, Hahnemann foge da cidade e é assaltado por seus inimigos, a filha sofreu fratura de perna e foram obrigados a passar 6 semanas em estado de miséria na aldeia de Muhlhau. Depois foi para Altona e em 1800 transferiu-se para Hamburgo.
Em 1801 se instalou em Machern, aldeia perto de Leipzig.
Em 1808, Hahnemann entrou num período de glória. A clientela aumentava pelos resultados que obtinha com a nova medicina.
Em 1811, instala-se pela terceira vez em Leipzig, em condições econômicas bem mais favoráveis. Hahnemann solicitou autorização para realizar conferências na universidade de Leipzig. Fez sua primeira conferência, em 26 de junho de 1812, em latim: dissertação histórica e médica sobre o helleborismo.
Em 28 de setembro de 1812 foram inauguradas as suas conferências com grande assistência. Hahnemann tinha, então, 57 anos de idade. Abria o Organon e começava a comentá-lo com entusiasmo e atacava a alopatia, provocando desagrado de muitos. Apesar disto conseguiu reunir seus primeiros discípulos: Franz Hartmann, Gustav Wilhelm Gross, Christian Gottlob Hornburg, Langhamer, os dois irmãos Ernst Ferdinand e Théodor Johann Rückert, Johann Ernst Stapf e W. E. Wislicenus, Frans Hartmann.
Hahnemann conseguiu chamar a atenção para a nova medicina. Inaugurou, em sua residência, o Instituto homeopático, onde recebia os discípulos e ministrava um curso de 6 meses de duração.
Em 1813, uma epidemia de tifo atingiu Leipzig e o êxito de Hahnemann, obtendo curas fantásticas, foi excepcional. Porém a Homeopatia sofria sucessivos ataques.
Em 1820, Hahnemann tratou do príncipe Scwarzenberg, acometido de hemiplegia direita. O príncipe consegue alguma melhora com as indicações dietéticas de Hahnemann, mas logo as desobedece, abusa do álcool e falece de um ataque de apoplexia, cinco semanas após. Os professores da universidade de Leipzig atribuíram a Hahnemann a morte do príncipe. O professor Clarus, que autopsiou o cadáver, apresentou argumentos capciosos para difamar Hahnemann, caluniando-o terrivelmente.
Em 1821, abandona Leipzig e vai para Koethen, sendo acolhido pelo duque de Anhalt, Apesar desta proteção, o povo não o acolheu devidamente. Durante os 15 anos que viveu em Koethen, Hahnemann quase não saia de casa. Sua clientela, seus estudos e o carinho da família lhe bastavam.
Os ataques às teorias homeopáticas atingem o auge em 1825, com o emprego das doses infinitesimais. Até Hahnemann utilizara então os medicamentos em tinturas e baixas diluições.
Em 1830 falece a esposa de hahnemann.
Na tarde de 8 de outubro de 1834, desce de uma carruagem um jovem estrangeiro; um francês, conforme pareceu aos que presenciaram o desembarque. Tratava-se, no entanto, de uma senhorita francesa que usava roupas masculinas e viajava só, para proteger-se. Seu nome era D’Ervilly. Três meses depois estavam casados e 5 meses depois se mudaram para Paris. *
A partir de Paris a Homeopatia se espalha pelo mundo.
Caso notável foi a cura da filha de Ernest Legouvé, membro da academia francesa. Sua filha de 4 anos fora desenganada pelos médicos mais famosos de Paris. Hahnemann a observou durante algum tempo e no dia seguinte iniciou o tratamento. Houve uma agravação no décimo dia e por fim a menina se curou. Isto provocou muita discussão e a academia de medicina solicitou ao ministro Guizot que proibisse Hahnemann de exercer a homeopatia. O ministro negou o pedido com estas considerações: “Hahnemann é um sábio de grande mérito. A ciência deve ser para todos. Se a homeopatia é uma quimera ou um sistema sem valor próprio, cairá por si mesma. Se for, ao contrário, um progresso, se difundirá apesar de todas as nossas medidas de preservação; e a academia, antes que ninguém, deve desejá-lo, pois tem a missão de fazer progredir a ciência e de alentar seus descobrimentos”.
Hahnemann falece de uma afecção brônquica no dia 3 de julho de 1843, às 5 horas da manhã, aos 88 anos de idade, em sua casa em Paris, à Rua de Milan, n° 1
*Estes episódios estão romanceados em. A homeopathic love story. Hahnemann and Melanie. Rima, Handley, 1990.
PS – Samuel Hahnemann deixou muitas contribuições para cuidados com a saúde e tratamentos das doenças;
Saúde pública
•Desenvolveu um método para a purificação da água que naquela época já estava suja e contaminada, através do uso do nitrato de prata e a seguir o sal, provocando floculação e desidratação.
1792 – O amigo da saúde, 100 páginas.
1796 – Manual para as mães.
Mineração
• Publica trabalho sobre a intoxicação dos mineradores nas minas de prata, por cobalto e cobre.
Indústria
• Trabalho sobre a intoxicação das pessoas que usavam roupas vermelhas coloridas com cobalto.
• Trabalho sobre a intoxicação das pessoas que cozinhavam com panelas de chumbo.
• Trabalho sobre a intoxicação pelo carvão mineral nas cidades que o usavam na calefação ao invés do carvão vegetal.
Farmácia
• Trabalho sobre a intoxicação pelo arsênico, através do levantamento de inúmeros casos de intoxicação por este, que na época era amplamente vendido nas farmácias como febrífugo.
Trabalhou durante um período procurando quimicamente a substância ali contida que abaixava a febre. Não prosseguiu neste trabalho, senão teria descoberto o ácido acetil salicílico 50 anos antes de ele ser isolado da casca do salgueiro por químicos ingleses, ou 100 anos antes dele ser sintetizado pelos estadunidenses.
1793 – Dicionário de Farmácia (A/E), 280 páginas.
1795 - Dicionário de Farmácia (F/K), 244 páginas.
1798 - Dicionário de Farmácia (L/P).
1799 - Dicionário de Farmácia (Q/Z).
Foram estes e outros tantos trabalhos de Hahnemann que levaram ao seguinte comentário de Christoph Wilhelm Hufland (o principal comentador científico do século XVIII na Europa): “Hahnemann era o mais ilustre médico entre todos os químicos e o mais ilustre químico entre todos os médicos, um consultor honesto, dedicado ao progresso industrial e ao bem estar do seu semelhante, e que o seu compromisso era com a humanidade”.
No tocante á Homeopatia as principais obras:
1796 - Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes curativas das substâncias medicinais, seguido de alguns comentários sobre os princípios admitidos até nossos dias, 144 páginas e primeira publicação sobre a nova doutrina.
1810 - Organon da Medicina Racional,
(novas edições em 11819; 1824; 1829; 1833)
(deixou uma nova edição revisada que só veio a conhecimento público em 1923)
1811 - Matéria Medica Pura, 1ª parte; 1816, 2ª e 3ª partes; 1818, 4ª parte.
1819, 5ª parte;1821, 6ª parte.
1828 - Doenças crônicas, 1ª edição.
1832 - Introdução do repertório de Böenninghausen.
1835 - Doenças crônicas, 2ª edição.
BIBLIOGRAFIA
HAEL, R. Samuel Hahnemann Sua Vida e Obra – Trad. De Tarcizio de Freitas Bazílio. Ed. Homeopática Brasileira. 1999.
GALHARDO, J. Iniciação Homeopathica. Parte histórica. RJ: Typ. E. Sondermann, 1936. Dias, Aldo Farias Fundamentos da Homeopatia: princípios da prática homeopática. RJ: Cultura Médica, 2001
Thouret, Georges Samuel Hahnemann, su vida, sus ideas - Tesis de doctorado en medicina.